Comic Relief
Olá, tudo bem?
Fim de ano com notícias tristes no Brasil. Acidentes, tragédias, violência, crise econômica sem precedentes, dólar disparando de maneira irascível, descaso com o povo.
Deus poderia nos dar um comic relief, que é a pausa entre um drama e outro, utilizado na dramaturgia dos humanos para deixar o público respirar antes de assistir à outra história pesada.
Comic relief: Alívio cômico.
Mas estamos sendo colocados em provas de resistência, dia após dia. Vence quem chegar mentalmente saudável, equilibrado, com algum motivo para sorrir, e com esperanças no Ano Novo.
Eu tenho fé em dias melhores. E trabalho a minha mente e o meu espírito para trazer alegria aos que amo e vivem comigo. Para deixar o ambiente mais leve quando chego e também quando vou embora. Deixar boas lembranças, nunca resmungos. Nem sempre a gente consegue. Mas é preciso tentar e não desistir de ser feliz. e de fazer os outros felizes.
É um exercício diário de perseverança, de empatia, de generosidade e de compreensão para saber que ninguém é igual ao outro. E que cada pessoa tem as suas próprias necessidades, sonhos, jeito de ver a vida. Cada pessoa tem o próprio tempo de sentir, de sorrir, de digerir momentos bons e outros nem tanto, de chorar.
Às vezes, eu solto uma frase engraçada em meio ao caos para aliviar a tensão. Ou mesmo para colorir um dia cinza. Faço o comic relief na vida de quem amo.
Como autora de trabalhos diversos, do drama à comédia, penso que a vida poderia ser mais leve se houvesse o comic relief na televisão. Para que o povo tivesse acesso.
O que seria esse alívio cômico? Uma cena de novela? Não. Porque seria necessário assistir à trama inteira e torcer para, em algum momento, surgir o comic relief. Às vezes entregue aos coadjuvantes ou às participações inexpressivas, que desperdiçam o bom texto, sem dominar o devido tempo de comédia. E talvez quem não acompanhasse a trama, não entenderia o contexto do alívio cômico.
Ah, os programas de humor. Aí, sim, haveria um verdadeiro alívio cômico prolongado. Uma hora de abstração, risadas, e coração leve. Roteiros afiados, sem freios, sem não-me-toques, sem censura, com direção especial e atores realmente engraçados.
Fui criada assistindo ao Jô Soares e ao Chico Anysio na televisão. Lembro até hoje das cenas, dos personagens, dos bordões. São icônicos. Escrevi durante anos o Show do Tom Cavalcante, além de sitcom, especiais que criei, e outros programas de humor. Adoro. Sinto saudades. De escrever e de assistir ao trabalho de colegas talentosos que estão fora do ar.
Adoro especialmente escrever sitcom ou comédias românticas. Tenho pilotos prontos na gaveta. À espera de alguma produtora. Comédias leves, sutis, ou mais populares. Tenho de correr atrás e mostrar. Gosto dos textos e das histórias. E o autor tem de gostar. Somos mais críticos do que qualquer crítico de jornal. Temos de rir ao escrever, senão a cena não funciona.
O primeiro público sempre é quem escreve. Ler para si, acreditar na situação criada, ver que fará o ator também se divertir e assim a risada chegar com prazer ao público. A gente que escreve percebe quando o ator também se diverte com a cena. Quando deixa de ser um mero trabalho para ser um momento de alegria no ofício.
Fazer comédia não é para qualquer ator. Nem para qualquer escritor. Sempre ouvi menosprezo sobre a comédia e, mais ainda, sobre os programas de humor. Mas tente fazer alguém rir. É difícil. Fazer o drama é mais fácil.
Quando cursei a Oficina de Autores da Tv Globo, a prova classificatória, após o meu texto ter sido selecionado entre os 600 participantes, era escrever a mesma cena para o humor e para o drama. Como quem diz: “Tudo na vida tem duas vertentes, duas maneiras de se ver”.
Alguém conta um drama hoje e se derrama em lágrimas. Daqui a alguns anos, ao se recordar, com o distanciamento do tempo e da situação em si, dá boas risadas. Consegue filtrar trechos engraçados no que um dia foi sofrimento.
Escrevo no dia em que um ícone do humor saiu de cena: Ney Latorraca. Uma das pessoas mais engraçadas dentro e fora da televisão. Cresci vendo Ney na televisão e, adulta, no teatro.
O primeiro impacto de Ney na minha vida foi em “Estúpido Cupido”, onde fazia um personagem secundário, mas que roubava as cenas: Medeiros, o Mederix, drix, drix. Infância e até hoje lembro dele na lambreta, a jaqueta de couro, o chiclete. Teve Vlad, o vampiro incontrolável e absurdamente divertido de “Vamp”, uma novela sensacional e criativa. Seu Quequé, de “Rabo de Saia”, onde se dividia entre três mulheres. O pai de Zelia Gattai, em “Anarquistas, Graças a Deus”, onde mostrou que também dominava o drama. O absurdo de fazer cinco personagens na novela “Um Sonho a Mais”, que só fazia sentido por ter Ney em surto. “O Mistério de Irma Vap”, com ele e Marco Nanini no teatro. Sorte tive de escrever novela com Nanini. E o mais recente e mais delirante que foi Barbosa, no “TV Pirata”, um dos melhores projetos da TV brasileira. Toda criança e até adulto imitava Barbosa, de boca mole, e jeito de tarado.
Que emoção me invade ao saber que Ney, generosamente, deixou os seus quatro apartamentos de herança para instituições importantes, inclusive o Retiro dos Artistas, e a ABBR. Ney dizia que sempre pagava os boletos em dia porque já foi pobre e tinha agonia de dívida. Ney gostava de gente, de ser famoso, de ser estrela. Brilhou em vida e na morte. Que alma linda. Descanse em paz. A gente fica com as risadas, as histórias, o talento dele, as atuações na memória.
Hoje não teria como funcionar o “Tv Pirata”, o “Casseta e Planeta”, dos meus queridos amigos e parceiros de projetos bacanas. Seriam cheios de cortes e talvez não tivessem a mesma liberdade de texto, de criação e de atuação. Temos que despertar dessa chatice e de tanta proibição. Fazer a revolução do humor.
A televisão está chata. Sem humor. Os projetos mais recentes foram de uma turma arrogante, de lacração, pretensiosa, com pouca ou nenhuma graça. Faltam os Jô, os Chico, Miguel Falabella, os Casseta, Ney na atuação, soltando a franga e levando o público a ter dor de barriga de tanto rir. Faltam os roteiros com diálogos inteligentes e realmente engraçados. Faltam as portas abertas das emissoras de televisão ao humor. Ao bom humor.
Viva o comic relief. Precisamos dele, como o ar que respiramos.
Um beijo, Leticia.




